‘Alunos se esmurraram por causa de videogame’, conta professora

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Os relatos de violência no ambiente escolar em Fortaleza são cada vez mais comuns. Quase metade dos estudantes da capital cearense não se sentem protegidos dentro da escola, conforme mostra a pesquisa Infância [Des]Protegida, da Organização Não Governamental (ONG) Visão Mundial, lançada no mês passado. Segundo uma professora da rede pública que não quis se identificar, as agressões vão desde ameaças veladas e xingamentos “às vias de fato”.

Há cerca de um mês, dois de seus alunos trocaram socos durante o intervalo por causa de um comentário sobre jogos de videogame. “Dois amigos estavam conversando sobre um jogo. Um terceiro se meteu na conversa e reclamou da postura de um deles, como se esse não soubesse jogar”, conta. A desavença, então, chegou à agressão física. “Pra você ver como o gatilho é bobo. Os alunos estão ficando muito arredios, sem controle socioemocional; eles brigam e gritam por qualquer coisa”, lamenta.

A Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza (SME) declarou que promove uma política de proteção à criança e ao adolescente por meio do trabalho da Célula de Mediação Social e Cultura de Paz, atuando no fortalecimento da escola para a resolução de conflitos e pela disseminação da cultura de paz. O parque escolar de Fortaleza conta hoje com 573 equipamentos, que atendem a mais de 223 mil alunos.

 

 

 

Agressões cotidianas

 

 

Em outro caso, a professora temeu por si mesma. Um adolescente rasurou uma folha de redação e pediu uma substituta, o que a política da escola impede. “Ele rasgou a folha na frente dos colegas e jogou no lixo. Quando o tirei de sala, o olhar ameaçador que recebi foi absurdo. A sala ficou um túmulo”, diz. Segundo ela, posturas ameaçadoras são comuns entre os estudantes, que têm média de 15 e 16 anos.

O estudo da Visão Mundial também revela que, quanto maior a idade, menor é a chance de crianças e adolescentes se sentirem seguros. Foram pesquisados 3.814 estudantes de 9 a 17 anos, matriculados do 5º ao 9º ano do Ensino Fundamental, em 67 escolas de ensino público de Fortaleza, Salvador, Recife; Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro; Canapi e Inhapi, em Alagoas; e Governador Dix-Sept Rosado, no sertão do Rio Grande do Norte.

Um em cada três estudantes entrevistados relatou situações em que sofreu violência direta ou consequência da violência urbana: 84% presenciaram brigas entre alunos, 36% tiveram aulas canceladas por motivos de tiroteio ou confusão na rua e 33% sofreram ameaças, abuso físico e xingamento na escola. Entre crianças e adolescentes negros, este último índice sobre para 37%.

 

 

Prejuízos futuros

 

 

Harley Gomes, vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia no Ceará (Abpp-CE), diz que é preciso entender o estudante como um sujeito biopsicossocial. “Ele não deixa seus problemas à parte da escola. Temos jovens que foram bem atendidos nas questões afetivas e emocionais, mas também aqueles que são vítimas de conflitos familiares, são agredidos, violentados, e vítimas da ausência de políticas públicas”, explica.

O especialista alerta para a naturalização de discursos e práticas violentas entre crianças e adolescentes, já que alguns sujeitos percebem atos agressivos como forma de brincadeira ou interação. “Geralmente, esse pensamento parte do agressor. Ele não vê um xingamento ou empurrão dentro de sala como ato violento, mas como forma de sociabilidade”, afirma.

Karina Lira, assessora de proteção infantil da Visão Mundial, ressalta que a violência pode levar ao baixo desempenho escolar e à desmotivação da permanência na escola. Na dimensão da saúde mental, os jovens podem desenvolver depressão e dificuldade de estabelecer vínculos sociais e afetivos. Há preocupação ainda com propensão à agressividade e drogadição. “É um impacto global”, lamenta.

 

 

Células de mediação

 

 

A professora da rede pública   vê como necessidade a presença de psicopedagogos nas escolas. “Esses jovens, várias vezes, não têm com quem desabafar porque o pai e a mãe vivem trabalhando. Temos a sensação de que estamos largados para resolver a situação do jeito que dá. É uma sensação de impotência”, confessa.

A SME afirma manter parcerias com outros órgãos públicos da rede de proteção da criança e do adolescente; realizar formação técnica em mediação de conflitos, justiça restaurativa, inteligência emocional com profissionais de educação; e manter o programa Escola Mediadora que Promove a Paz (EMPAZ).

Já a Célula de Segurança Escolar, que atua em ação conjunta com a Inspetoria de Segurança Escolar da Guarda Municipal (ISE), realiza “trabalho preventivo nas escolas, com viaturas e equipes treinadas, que prestam assistência, com patrulhamento ostensivo e rondas diárias”. Casos de insegurança são relatadas à Célula para a adoção das medidas cabíveis, relatou a Pasta.

Embora não tenha alunos no escopo da pesquisa, por lidar apenas com o Ensino Médio, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) informou que opera a Célula de Mediação Social e Cultura de Paz, desde 2016. A iniciativa visa a contribuir “com o fomento de ações voltadas para a prevenção da violência dentro do espaço escolar, criando um ambiente pedagógico seguro, acolhedor e propício ao desenvolvimento intelectual, humano e social”.

A Célula incentiva a criação dos núcleos de mediação como ferramenta pedagógica para minimizar os impactos dos conflitos nas escolas. No ano passado, também foi lançada a Política de Desenvolvimento de Competências Socioemocionais para a rede pública estadual de ensino, incluindo reflexões sobre o jovem, em suas diversas fases da vida, com ênfase em projetos futuros, no currículo das escolas.

Fonte: G1/CE

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