Suicídio está ainda mais longe da prevenção em municípios do interior

Ocara, um município com pouco mais de 25 mil habitantes – sendo a maior parte (16.402) população rural, segundo estimativa do Anuário do Ceará 2018-2019 – e distante 101,6 quilômetros de Fortaleza, se assustou com três mortes acontecidas entre o final de 2018 e o início de 2019: dois adolescentes e um idoso, de ambos os sexos, se suicidaram. “Foi impactante. Até então, não tinha o contato com essa realidade e, a partir disso, a gente passou a ter o olhar ampliado para a saúde mental”, expressa o psicólogo Wgerbesson Freire Maciel, coordenador do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Ocara e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Natural do município, Wgerbesson não se lembra desse assunto nas conversas da infância e da adolescência: “Até na faculdade, a gente fala muito pouco. De modo geral, ninguém gosta de falar sobre morte. E existe um tabu, uma crença de quem comete suicídio é fraco, quer chamar a atenção”. Entre seus pacientes, ele exemplifica, há uma adolescente que tentou o suicídio, mas os pais resistiram levá-la ao tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) porque acreditavam que “depressão é frescura… Muitos dizem: no meu tempo, não era assim”.

Para o psicólogo, a informação é capaz de desfazer o desconhecimento de uma realidade que já chega à vida no Interior. Os casos recentes de suicídio, relaciona Wgerbesson, mobilizaram um grupo de trabalho interdisciplinar para a prevenção. “Mudou a visão profissional, de que é um município adoecido. Temos muitos adolescentes que se automutilam, com depressão e conflitos familiares”, retrata.

Além da falta de conhecimento generalizada – da formação acadêmica ao cidadão – , um quadro depressivo é, comumente, ignorado, soma o psiquiatra Fábio Gomes de Matos, coordenador do Programa de Apoio à Vida/Universidade Federal do Ceará (Pravida/UFC). “No Interior, mostrar o sofrimento para o outro pode ser sinal de fraqueza. A noção de que a depressão é uma doença grave ainda não foi captada pela população”, expõe. O médico, referência no assunto, atenta também para outro lado do problema: 70% a 80% das pessoas que tentaram suicídio procuraram ajuda profissional uma semana antes da tentativa, ele sublinha, “e essa equipe foi incapaz de tratar isso”.

Notificações ainda pouco precisas, avaliam profissionais da área de saúde mental, tentam se aproximar das solidões mantidas à distância. Nos últimos cinco anos, no Ceará, o número de mortes por suicídio cresceu, passando de 566 (em 2010) para 643 (2018) – quase dois suicídios por dia. Os dados são da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), disponibilizados  pelo Programa Vidas Preservadas, do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

“E a gente observa que a vida tem ficado mais dura. No Interior, a falta de perspectiva de vida e de trabalho é mais difícil. A falta de perspectiva do futuro, principalmente, entre os adolescentes. E junta outro componente: a internet, o efeito cascata. A instabilidade é um elemento propício para a impulsividade”, humaniza a psicóloga Alessandra Xavier, professora do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará. “Esse aumento dos índices de suicídio revela que esse projeto de sociedade não está conseguindo atender aos projetos de vida das pessoas. A gente precisa parar e repensar esse projeto de sociedade”, aponta outras saídas.

 

Fonte: O Povo

Atitude Online

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